sábado, 29 de janeiro de 2011

Fonte Histórica (5). Abordagem Serial e recortes na Fonte

Dizíamos em momento anterior que os historiadores lidam habitualmente com um recorte tridimensional de seu tema: Tempo, espaço e Problema. Vamos considerar, neste momento, um utro tipo de recorte possível para os historiadores de hoje: o ‘recorte serial’.

Neste caso, recorta-se o objeto não propriamente em função de uma determinada realidade histórico-social concernente a uma delimitação espaço-temporal preestabelecida, mas mais precisamente em função de uma determinada série de fontes ou de materiais que é constituída precisamente pelo historiador. Este tipo de caminho historiográfico começou a emergir a partir de meados do século XX, tendo como marco a já mencionada obra de Pierre Chaunu sobre 'Sevilha e o Atlântico' (1954).

Na chamada ‘História Serial’ o historiador estabelece uma “série”, e é esta série que particularmente o interessa. François Furet, em seu 'Atelier do Historiador' (1982), define a História Serial em termos da constituição do fato histórico em séries homogêneas e comparáveis. Dito de outra forma, trata-se de “serializar” o fato histórico, para medi-lo em sua repetição e variação através de um período que muitas vezes é o da longa duração. Na verdade a duração longa, ou pelo menos a média duração (relativa às conjunturas), foram as que predominaram nos primeiros trabalhos de História Serial – muito voltados, nesta primeira época, para a História Econômica e para a História Demográfica, ao mesmo tempo que combinados com a perspectiva de uma História Quantitativa. Todavia, pode-se proceder a uma serialização relacionada também a um período relativamente curto, desde que o conjunto documental estabelecido seja suficientemente denso.

De certo modo, as possibilidades de tratamento serial permitiram uma sensível ampliação de alternativas em termos de recorte historiográfico, uma vez que as séries singulares a serem construídas por cada historiador já não se enquadrariam nas periodizações tradicionalmente preestabelecidas. Criar uma série é, em certa medida, recriar o tempo – assumi-lo como ‘tempo construído’, e não como ‘tempo vivido’ a ser reconstituído.

Por outro lado, optar pelo caminho serial pressupõe necessariamente escolher ou construir um problema condutor muito específico – problema este que é fator fundamental na constituição da própria série. A História Serial veio assim diretamente ao encontro de uma História Problema, como as demais modalidades historiográficas que passaram a predominar na historiografia profissional do século XX.

Com relação a este aspecto, e em se tratando de uma série documental homogênea, não teria sentido examinar esta série evasivamente, de modo meramente impressionista. A História Serial constitui-se necessariamente de uma leitura da realidade social através da série que foi construída pelo historiador em função de um certo problema*. Não se trata, assim, de optar inicialmente pelo estudo de uma determinada sociedade para só depois buscar as fontes que permitirão este estudo ou o acesso a esta sociedade, como poderia se dar em outros caminhos historiográficos. O que o historiador serial estuda é precisamente a série: este é basicamente o seu recorte e a essência de seu objeto. E pode-se compreender como uma “série” tanto os fatos repetitivos que permitem ser avaliados comparativamente, como uma determinada documentação homogênea.

No primeiro sentido, François Furet fala em termos de uma serialização de fatos históricos que trazem entre si um padrão de repetitividade (fatos históricos que serão obviamente de um novo tipo, não mais se reduzindo aos acontecimentos políticos). No segundo sentido, ao examinar os novos paradigmas historiográficos surgidos no século XX, Michel Foucault assinala que “a história serial define seu objeto a partir de um conjunto de documentos dos quais ela dispõe” . Isto abre naturalmente um grande leque de novas possibilidades:


“Assim, talvez pela primeira vez, há a possibilidade de analisar como objeto um conjunto de materiais que foram depositados no decorrer dos tempos sob a forma de signos, de traços, de instituições, de práticas, de obras, etc ...” (FURET, 1982]


Portanto, em que pese que fontes administrativas, estatísticas, testamentárias, policiais e cartoriais se prestem admiravelmente a um trabalho de História Serial, é possível também constituir em série documentação literária, iconográfica, ou mesmo práticas perceptíveis a partir de fontes orais. É mesmo possível constituir séries às quais não se pretenda necessariamente aplicar um tratamento quantitativo propriamente dito, mas sim uma abordagem mais tendente ao qualitativo – interessada ainda em perceber tendências, repetições, variações, padrões recorrentes e em discutir o documento integrado em uma série mais ampla, mas sem tomar como abordagem principal a referência numérica.

Uma das obras de Gilberto Freyre, por exemplo, constitui como série documental para o estudo da Escravidão no Nordeste os anúncios presentes em jornais da época – onde os grandes senhores anunciavam a fuga de escravos fornecendo descrições detalhadas dos mesmos, inclusive sinais corporais que falavam eloqüentemente das práticas inerentes à dominação escravocrata . Não é propriamente o Escravo que é o seu objeto, mas “o Escravo nos anúncios de jornal”, como o próprio título indica. Ou seja, busca-se recuperar um discurso sobre o Escravo a partir de uma série que coincide com os periódicos examinados pelo autor; procura-se dentro desta série perceber uma recorrência de padrões de representação, mas também as singularidades e variações, e por trás destes padrões de representação os padrões de relações sociais que os geraram.

Quantitativos ou qualitativos, os caminhos historiográficos marcados pela ultrapassagem do documento isolado passaram a se integrar definitivamente ao repertório de possibilidades disponíveis para o historiador. Interessa-nos dar a perceber aqui que o recorte documental mostra-se como uma outra possibilidade para o historiador delimitar o seu tema. Definido este recorte, surgirá então uma delimitação temporal específica, que será válida para aquele recorte problemático e documental na sua singularidade, e não para outros. Dito de outra forma, em alguns destes casos é uma documentação que impõe um recorte de tempo, a partir dos seus próprios limites e das aberturas metodológicas que ela oferece.

Será bastante buscar uma exemplificação final com o próprio estudo pioneiro de Pierre Chaunu. O recorte de sua tese, estabelecido entre 1504 e 1650, é criado a partir de uma primeira data em que a documentação da ‘Casa de Contratação de Sevilha’ lhe permite uma construção estatística, e extingue-se no marco de uma segunda data quando a documentação já não permite uma avaliação quantitativa dos fatos (precisamente uma data relativa ao momento em que o comércio atlântico deixa de trazer a marca do predomínio espanhol e em que, consequentemente, a documentação de Sevilha se dilui como definidora de uma totalidade atlântica). O recorte documental problematizado, enfim, organizou o tempo do historiador.

O recorte serial é em boa parte dos casos um ‘recorte na fonte’. Mas existem, para além disto, outras possibilidades de recortar o tema de acordo com a fonte. Pode ser que o historiador pretenda examinar uma obra singularizada – ou para identificar o pensamento de um autor, ou para analisar a sua inserção nos limites da época – como se faz muito habitualmente nos campos da História das Idéias e da História Social das Idéias. Pode ser que o interesse seja examinar uma determinada produção cultural, e que uma crônica, um cancioneiro ou uma seqüência iconográfica surjam como objetos de interesse de uma História Cultural ou de uma História Social da Cultura. Um mito ou um conjunto de mitos pode se constituir simultaneamente nas fontes e objetos de um trabalho de Antropologia Histórica. As possibilidades de empreender ‘recortes na fonte’, conforme se vê, são inúmeras.
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[O presente texto foi extraído do livro "O Projeto de Pesquisa em História"]

[BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 7a edição. p.47-51]


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Referências:

BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 7a edição.
CHAUNU, Pierre e CHAUNU, Huguette. Séville et l’Atlantique. Paris: S.E.V.P.E.N., 1955-1956.
FREYRE, Gilberto. O Escravo nos anúncios de jornais brasileiros do século XIX. São Paulo: Brasiliana, 1988.
FURET, François. A Oficina da História. Lisboa: Gradiva, 1991. v. I.

Fonte Histórica (4). Aspectos a serem observados em uma Fonte

Tentemos uma síntese. Tomaremos como ponto de partida o texto autoral, isto é, o texto que apresenta um autor definido (mesmo que anônimo), ao contrário do documento que é produzido institucionalmente como massa de dados (uma lista censitária, ou os documentos do fisco), ou que se produz involuntariamente, tal como os objetos que se perdem e depois são reencontrados na pesquisas arqueológicas.

Quando o historiador está diante de um texto que foi produzido por alguém, a primeira pergunta que costuma vir à sua cabeça é a que busca o autor. Quem escreveu este texto? O que pensava? Que intenções tinha no momento em que o escreveu? Fez de livre ou espontânea vontade, ou sob pressão? A quem visava?

Organizemos isso. Quando perguntamos "quem é o autor", podemos pensar em um indivíduo específico. Contudo, cedo aprendem os historiadores em formação que os indivíduos não se encontram soltos no tempo, desgarrados de uma sociedade, independentes dela. Se podemos nos perguntar pela (1) 'Autoria', logo também deveremos nos perguntar pelo (2) 'Contexto' que constrange ou libere esta autoria.

O Contexto corresponde a uma época, e também a uma sociedade que envolve um autor. Dificilmente um homem pode escapar aos limites impostos pelo seu tempo, e aos horizontes de percepção que lhe são franqueados a partir de sua época e da sociedade em que vive. Muitos dirão que, em hipótese alguma, um autor não pode escapar ao seu tempo. De um modo ou de outro, é nas águas de um Contexto que um Autor emerge: nelas ele se apoia, e contra elas ele se debate.

A pergunta pelo contexto autoral é uma pergunta que busca prescrutar também a sociedade no qual o indivíduo autoral está inserido. Perguntamo-nos, quando tentamos relacionar um Autor a uma Sociedade, pela 'posição social' que ocupa, pela 'profissão' que exerce, pelas 'instituições' que o enquadram.

Devemos também entender que um Autor, como todo indivíduo, possui uma história. Um texto foi escrito em determinado momento desta história. Podemos nos perguntar, portanto, pelas 'circunstâncias autorais'. Maquiavel, que foi eminência parda da política florentina em determinados momentos de sua história, escreveu sua obra mais conhecida - "O Príncipe" - alijado do poder. Essas circunstâncias autorais não podem deixar de interferir em sua obra. Adolf Hitler escreveu o primeiro volume do livro "Mein Kampf" na prisão, para a qual foi enviado após o fracassado "Putsch da Cervejaria" (1923). Além das circunstâncias da prisão, escreve-o no contexto que o alçou à liderança dos nazistas. Como estas circunstâncias - aquelas em que Maquiavel escreveu "O Príncipe", ou aquelas em que Hitler escreveu "Mein Kampf" - interferem ou ajudam a formatar cada um destes textos?

Na maior parte dos casos, senão sempre, um texto também é escrito visando um (4) Receptor. Escreve-se para comover alguém, para intimidá-lo, para informá-lo, para motivá-lo, para provocar-lhe reações.A Recepção, já discutimos isto anteriomente, termina por se inscrever também na Produção de um texto, uma vez que um autor também escreve o seu texto pensando naqueles que irão recebê-lo.

Todo texto lida com um (5) Vocabulário. Mesmo que o autor não pense nisso ou não deseje isto, um Vocabulário nos diz muitas coisas acerca deste autor - inclusive as que ele não pretendia dizer. Também diz muitas coisas acerca daqueles que lerão o texto. O texto, conforme já dissemos, é um ato de comunicação. O Vocabulário de um texto fala-nos de seu autor e de seus leitores.

Um texto pertence a algum (6) Gênero Textual. Ele pode ser um poema, uma carta, um edito régio, um ensaio científico, umdiscurso político, afora inúmers outras possibilidades, Há implicações quando estamos diante de um gênero ou de outro. O historiador, ao analisar o texto como fonte histórica, precisa se avizinhar deste aspecto. De igual maneira, todo texto possui uma (7) Forma, que corresponde à maneira como o discurso é organizado no texto. esta forma deve ser, igualmente, objeto de análise do historiador.

Já discutimos que todo texto está em (8) Intertextualidade. Ou seja,ele dialoga com outros textos: explicitamente ou implicitamente, voluntariamente ou involuntariamente. Recuperar a rede intertextual na qual se insere um texto é um passo importante da operação historiográfica de análise textual.

É claro, todo texto possui um (9) Conteúdo, embora seja muitas vezes difícil separar forma e conteúdo. O texto se apresenta como mensagem, como 'objeto de comunicação' que, é quase um truísmo dizer, pretende comunicar algo. O que o texto pretende dizer? O que ele não diz. É preciso analisar também, nesta mesma operação, os seus Silêncios (10).

Nem todo documento é autoral. Mas também podemos substituir algumas categorias. Se um documento do Censo não visa um Receptor, de todo modo, ele visa uma Finalidade. Os registros do Censo foram pruduzidos por algum motivo, ou para atender a determinadas finalidades. O que foi dito para o "texto", também pode ser pensado eventualmente para outros registros, como a 'imagem' ou a 'oralidade', embora cada tipo de suporte também apresente as suas singularidades.

Estes, e outros aspectos, devem ser considerados pelo historiador quando está diante de sua fonte.

Fonte Histórica (3) Dimensões envolvidas na análise qualitativa do texto

[o presente texto foi extraído do livro "O Campo da História"]


No último texto, vimos que, nos dias de hoje, tudo pode ser fonte histórica. Para muito além da documentação escrita, os historiadores contemporâneos aprenderam a lidar com fontes imagéticas, fontes materiais, fontes imateriais, fontes orais, ou mais o que s possa imaginar para além do suporte escrito.

Isso não quer dizer,todavia, que tenha decrescido o uso de fontes escritas pelos historiadores. Se outros suportes que não o escrito passaram a ser considerados pelos historiadores como fontes diretas para os seus estudos, o fato é que ainda hoje o historiador vê se ampliarem cada vez mais as oportunidades para trabalhar com os ‘textos escritos’. Ou seja, se a historiografia do século XX ampliou o seu conceito de fonte histórica para um mundo não-textual de possibilidades, também ampliou extraordinariamente os tipos de documentação escrita com as quais irá lidar. Não mais apenas as fontes institucionais e diplomáticas ou as crônicas oficiais que praticamente ocupavam todas as expectativas do historiadores do século XIX; hoje qualquer texto pode ser constituído pelo historiador como fonte: o diário de uma jovem desconhecida, uma obra da alta literatura ou da literatura de cordel, as atas de reunião de um clube, as notícias de jornal, as propagandas de uma revista, as letras de música, ou até mesmo uma simples receita de bolo. Não há mais limites para os tipos de textos que podem servir como materiais para o historiador.

Houve uma mudança na postura do historiador para com estes textos. Se antes os textos eram quase que exclusivamente utilizados como ‘testemunhos’ dos quais os historiadores do século XIX procuravam extrair informações mais ou menos diretas (na maior parte dos casos de uma maneira ingênua que associava o documento histórico à idéia de “prova”), hoje as fontes textuais são também utilizadas como ‘discursos’ a serem decifrados em si mesmos. Relembrar, ainda uma vez, o que vem a ser a ‘fonte histórica’, pode ajudar a iluminar melhor esta distinção entre “testemunho” e “discurso”.

A fonte histórica, já o dissemos, é aquilo que coloca o historiador diretamente em contato com o seu problema. Ela é precisamente o material através do qual o historiador examina ou analisa uma sociedade humana no tempo, ou um processo histórico na dinâmica do seu devir. Uma fonte pode preencher uma das duas funções acima explicitadas: ou ela é o meio de acesso àqueles fatos históricos que o historiador deverá reconstruir e interpretar (fonte histórica = fonte de informações sobre o passado), ou ela mesma ... é o próprio fato histórico. Vale dizer, neste último caso considera-se que o texto que se está tomando naquele momento como fonte é já aquilo que deve ser analisado, enquanto discurso de época a ser decifrado, a ser compreendido, a ser questionado. É neste sentido que diremos que a fonte pode ser vista como ‘testemunho’ de uma época e como ‘discurso’ produzido em uma época.

A historiografia, ao superar o positivismo ingênuo do século XIX, foi tendendo a valorizar cada vez mais esta dimensão da fonte histórica textual como ‘discurso’. Hoje, poderíamos dizer que a maior parte das práticas historiográficas insere-se em uma História do Discurso (ou, se quisermos, uma História Textual). Um discurso qualquer pode ser analisado tanto a partir de uma ‘abordagem qualitativa’ como a partir de abordagens 'quantitativas’, 'topológicas', ‘seriais’, considerandoque estas últimas examinam documentos reunidos em série. Falaremos das abordagens ‘serial’ e ‘quantitativa’ em outra oportunidade. Por ora, reflitamos sobre as possibilidades qualitativas de um texto.

Um texto pode ser abordado qualitativamente de muitas maneiras. Os historiadores, os críticos literários, os lingüistas, os psicanalistas, e quaisquer outros profissionais que dependam da interpretação de textos para o seu ofício (como é o caso também dos advogados e dos investigadores de polícia) não cessam de inventar novos modos de trabalhar sobre o texto, avançando para muito além daquilo que se encontra aparentemente exposto em sua superfície. As abordagens semióticas, por exemplo, hoje utilizadas por vários historiadores, enriqueceram muito as possibilidades de fazer um texto falar sobre coisas que o próprio autor do texto não pretendia dizer. Quando alguém utiliza determinadas expressões e palavras, já está dizendo algo ao bom analista de textos, independente dos sentidos que ele pretenda atribuir às palavras. A presença de certas imagens em um discurso, a recorrência de determinadas palavras, a maneira de organizar uma narrativa, as referências intertextuais (a outros textos) - sejam estas voluntárias, explícitas, implícitas ou involuntárias - tudo isto fala por si mesmo independente do ser falante que pronuncia o discurso.

Isto, sem levar em consideração a possibilidade de contrapor textos diferenciados, de pôr as várias versões a respeito de um acontecimento a se iluminarem ou a se contradizerem reciprocamente. Estas contradições, veremos mais adiante, podem ser de grande valia para um historiador. Sem contar que as contradições existem internamente a um mesmo texto, trazendo à tona o caráter polifônico de certos discursos.

A riqueza de qualquer texto está no fato de que ele é simultaneamente um ‘objeto de significação’ e um ‘objeto de comunicação cultural entre sujeitos’. Estes dois aspectos na verdade se complementam: se por um lado o texto pode ser definido pela organização ou estruturação que faz dele uma “totalidade de sentido”, por outro lado ele pode ser definido como um objeto de comunicação que se estabelece entre um destinador e um destinatário (ou entre um destinador e muitos destinatários).

A tentativa de avaliar o texto na sua primeira dimensão, a de ‘objeto de significação’, gera a análise interna ou estrutural do texto (que pode ser empreendida por aportes teóricos e metodológicos diferenciados, sendo a semiótica uma destas possibilidades). Já a avaliação do texto como ‘objeto de comunicação’ implica na análise do contexto histórico-social que o envolve e que, de alguma maneira, atribui-lhe sentido. Neste caso, empreende-se a análise externa do texto, que também pode ser concretizada através de diferenciados aportes teóricos e metodológicos. Ainda com relação à sua análise externa, o texto também pode ser exa-minado do ponto de vista das intenções ou das motivações pessoais do autor que o produziu, ou daqueles que dele se apropriam imputando-lhe novos sentidos. A perspectiva mais útil para a História é considerar mesmo o texto a partir da dualidade que o define enquanto ‘objeto de significação’ e ‘objeto de comunicação’.

De acordo com esta visão complexa e multidimensional do texto, que postularemos ser a mais adequada para o historiador, pode-se dizer que a análise de um discurso deve contemplar simultaneamente três dimensões fundamentais: o intratexto, o intertexto e o contexto. O ‘intratexto’ corresponde aos aspectos internos do texto e implica exclusivamente na avaliação do texto como objeto de significação; o ‘intertexto’ refere-se ao relacionamento de um texto com outros textos; e o contexto corresponde à relação do texto com a realidade que o produziu e que o envolve. São precisamente estas duas últimas dimensões que exigem que o texto, além de ser tratado como um objeto de significação em si mesmo, seja considerado também como objeto de comunicação.

A visão do texto a partir da tríplice abordagem do intratexto, do intertexto e do contexto é inegavelmente a mais rica para um historiador que pretende utilizar o discurso textual como fonte. Por outro lado, autores como Roland Barthes consideram o texto como um sistema auto-suficiente de signos cujo significado provém de suas interrelações, e não de fatores externos como a ‘intenção do autor’ ou o seu ‘contexto de produção’. Assim, para a perspectiva estruturalista de Roland Barthes as palavras, símbolos e imagens em interação criam sistemas de significados que repetem a estrutura da linguagem e refletem as funções sociais da mitologia. O resultado disto é que o texto poderia ser analisado sem um recolocação na sociedade que o produziu ou que o consome. Ou, dito de outra forma, a análise restringe-se neste caso apenas ao plano do intratexto.

Em que pesem as contribuições que o historiador possa extrair deste tipo de semiótica estruturalista que procura examinar o texto em si mesmo, desprezando as referências externas, a verdade é que sempre será muito importante para um historiador “contextualizar” o texto com o qual está trabalhando. Todo texto é produzido em um lugar que é definido não apenas por um autor, pelo seu estilo e pela história de vida deste autor, mas principalmente por uma sociedade que o envolve, pelas dimensões desta sociedade que penetram no autor, e através dele no texto, sem que disto ele se aperceba. Uma época, uma sociedade, um ambiente social (rural, urbano), uma Instituição, uma rede de outros textos às quais o autor deverá se conformar, as regras de uma determinada prática discursiva ou literária, as características do gênero literário em que se inscreve o texto: tudo isto constrange o autor que escreve o texto, deixando nele suas marcas a princípio indeléveis, mas que devem ser pacientemente decifradas pelos historiadores e outros analistas de textos.

Além de um lugar de produção, todo texto tem também um destino. Pode ser, por exemplo, um determinado receptor ou grupo de receptores (os leitores de um jornal ou de uma obra literária, a população que é comunicada acerca das decisões régias através de um edito). O receptor, mesmo que o autor ou produtor do texto não esteja plenamente consciente disto, ajuda também a escrever o texto. Quem escreve um texto acaba sem querer antecipando certas expectativas de quem irá recebê-lo, seja para contemplá-las ou para afrontá-las. Qualquer texto visa um receptor (ou um “lugar de recepção”), porque ele tem uma “intenção” (uma mensagem que quer ser transmitida ou uma informação a ser registrada).

É verdade que, em alguns casos, o texto não é produzido originalmente com vistas propriamente a um receptor, mas sim para contemplar determinada finalidade. Uma canção quer chegar a um público, um Edito quer chegar a um súdito, uma carta quer atingir um interlocutor ... mas os documentos cartoriais e paroquiais, a princípio, pretendem apenas registrar certas informações que serão necessárias oportunamente, ou para as autoridades que controlam uma população, ou para os próprios indivíduos aos quais se referem estes documentos. O historiador pode lidar tanto com textos que visam ‘receptores’, como com textos que buscam cumprir determinadas ‘finalidades’.

Grosso modo, pelo que pudemos ver até aqui, o triângulo da comunicação em que se insere todo texto tem estes três vértices: um lugar de produção, um conteúdo (intenção, mensagem), um lugar de recepção (ou de destino). O historiador deve lidar habilmente com cada um destes vértices e com a sua interação (porque cada um deles se inscreve no outro, no sentido, por exemplo, de que o produtor do texto antecipa certas expectativas do seu receptor).

A isto poderemos acrescentar uma outra dimensão que é a da ‘intertextualidade’, a que já nos referimos anteriormente. Qualquer texto insere-se em uma rede de semiose, em uma rede de textos da qual ele extrai um pouco do seu sentido. Já fizemos notar que o próprio ‘gênero’ no qual se enquadra um texto (edito, crônica, poesia, norma jurídica) já estabelece automaticamente um primeiro nível de intertextualidade (o texto irá dialogar, quer queira o autor ou não, com as normas literárias e com o repertório de possibilidades que regem aquele gênero, mesmo que em alguns casos o autor pretenda afrontá-los). Depois aparecem as demais intertextualidades: o autor irá se referir explicita ou implicitamente a outros textos, e existirão também os textos que, mesmo sem o conhecimento do autor, estarão inscritos no seu discurso.

A questão da intertextualidade é naturalmente bastante complexa, uma vez que ela pode aparecer tanto no texto que o historiador se põe a analisar (as intertextualidades explícitas e implícitas inerentes à construção textual do autor do documento estudado) como também na própria análise do historiador, que na sua leitura do documento estabelece intertextualidades em diversos níveis. É por isso que Eliseo Verón, em um livro intitulado "A Produção do Sentido" (1979), escreve que “não se analisa jamais um texto: analisa-se pelo menos dois, quer se trate de um segundo texto escolhido explicitamente para a comparação, quer se trate de um texto implícito, virtual, introduzido pelo analista, muitas vezes sem que ele o saiba” .

A história da historiografia inscreve-se em um gradual aprendizado do historiador diante dos textos com os quais ele deverá lidar. Muito aconteceu desde as primeiras aproximações positivistas e historicistas, especialmente preocupadas com as críticas interna e externa do texto, mas ainda ingênuas no tratamento do discurso. A Psicanálise, a Lingüística, a Semiótica e as teorias da Comunicação revolucionaram as possibilidades de interpretar um texto, e destas revoluções o historiador de hoje se vale.

Como já se deve ter percebido, não existe certamente uma técnica única que possa ser aplicada à análise de texto para todos os casos. O primeiro contato do historiador com a sua fonte textual consiste, de qualquer modo, em fazer-lhe algumas perguntas fundamentais (já se disse que o documento só fala quando o historiador faz as perguntas certas). Se, como dissemos antes, a boa análise deve abranger simultaneamente o contexto, o intertexto e o intratexto, o historiador pode começar por identificar a procedência da fonte, a sua inserção em uma sociedade mais ampla, as condições de sua produção (aspectos que, se tivéssemos de resumi-los em uma indagação primária, parecem perguntar ao texto: “de onde vens?”). Somente em seguida virão as perguntas que começam a perscrutar os caminhos internos do texto, ou a abrir as portas secretas de sua decifração. “Com quem falas”, “Do que falas?”, mas também “Sobre o que silencias?”.

O conteúdo de um texto, cedo aprende o historiador, não pode se resumir à superfície de sua mensagem. Há os entreditos, os interditos, os não-ditos, o vocabulário revelador. Se texto é falso, ou se ele mente, tanto melhor, pois o historiador poderá perguntar: “por que mentes?”. Não serão raras as vezes em que o analista irá encontrar o que procura precisamente nas contradições de um texto, seja ao nível do intratexto (as contradições internas) ou ao nível do intertexto (as contradições que aparecem no confronto com outras fontes). Ao historiador, o texto costuma falar através dos seus detalhes mais insignificantes, como um criminoso que fala através das pistas que deixa escapar descuidadamente.
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[o presente texto foi extraído do livro "O Campo da História"]

[BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 8a edição. p.134-140]


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Referências:

BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Vozes, 2011, 8a edição.
BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo: Cultrix, 1996.
VERÓN, Eliseu. A produção do sentido. São Paulo: Verbo, 1982

Fonte Histórica (2) A Expansão Documental

O debate sobre as “fontes históricas” remete-nos a um dos dois fatores que constituem a mais irredutível singularidade da História como campo de conhecimento. De fato, se por um lado a História pôde um dia ser definida por Marc Bloch, nos anos 1940 como a “Ciência que estuda o Homem no tempo”, a obrigatoriedade do uso de “Fontes Históricas” pelo Historiador, como único meio de atingir diretamente este homem que se inscreve no Tempo, é certamente o segundo fator inseparável do conhecimento histórico. A ‘centralidade da dimensão temporal’, neste tipo de conhecimento que é a História, e a ‘utilização das Fontes’, pelo Historiador que o produz, são precisamente os dois fatores que fazem com que a História possa ser distinguida de qualquer outro campo de saber.

Começaremos por lembrar que Seignobos, em um manual escrito no início do século XX, um dia registrou uma frase que terminou por se tornar célebre: “Sem documento não há história” (1901). Com isto buscava situar a fonte histórica como o princípio da operação historiográfica. A frase seria contraposta, algumas décadas depois, por uma outra que seria criticamente pronunciada por Lucien Febvre: “Sem problema não há história”. O historiador dos Annales, com isto, queria mostrar que a operação historiográfica principiava na verdade com a formulação de um problema. Seria um problema construído pelo Historiador o que permitiria que ele mesmo constituísse as suas fontes, agora deslocada para o segundo passo da pesquisa.

Hoje, decorridas muitas décadas após os primeiros “combates pela história” travados pelos historiadores dos Annales contra uma historiografia que denominaram “positivista”, pode-se perceber mais claramente que os dois elementos – o “Problema” e a “Fonte” – acham-se frequentemente entrelaçados: se o “Problema” construído pelo historiador sinaliza para algumas possibilidades de “Fontes”, determinadas fontes também recolocam novos problemas para os historiadores. Podemos pensar, a título de exemplos, nas chamadas “fontes seriais”, que permitem aos próprios historiadores formularem novos tipos de problemas que só adquirem sentido no tratamento serial da documentação, ou ainda o caso das “fontes dialógicas”, aqui entendidas como aquelas que permitem ao historiador que sejam acessadas diversas vozes nas sociedades por ele examinadas. Os exemplos nos mostram que, se o “Problema” proposto pelo historiador permite que ele constitua suas fontes de determinada maneira, as próprias fontes históricas também devolvem algo ao historiador. Dito de outra forma, pode-se dizer que, na operação historiográfica, o sujeito que produz o conhecimento e os meios de que ele se utiliza interagem um sobre o outro, de modo que, no fim das contas, se o Historiador sempre escreve seu texto de um lugar no mundo social e no tempo, ao mesmo tempo ele mesmo pode se transformar a partir da sua própria experiência com as fontes.

Vamos lembrar aqui um interessante texto escrito por Carlo Ginzburg em 1979, com o título “Provas e Possibilidades”, no qual o micro-historiador italiano chama atenção para uma questão peculiar. Embora reconhecendo que o trabalho do historiador é inicialmente direcionado por um certo “imaginário historiográfico” (tal como propôs Hayden White em Meta-História) e também por um lugar social (tal como postula Michel de Certeau em “A Operação Historiográfica”), Ginzburg esmera-se em perscrutar o fato de que o historiador também se modifica pela interatividade com relação à alteridade trazida pela documentação (GINZBURG, 1989, p.196). Vale dizer, não é apenas um determinado lugar social-institucional, e uma certa “imaginação historiográfica” – ou o seu Presente – o que dá uma direção ao trabalho do historiador. O próprio Passado, através das especificidades de sua documentação, traz ao historiador vozes com as quais ele interage, colocando-o em contato com aspectos que passam a integrar a sua própria experiência, e com elementos vários que o reconstroem como sujeito de investigação. Desta forma, a própria documentação examinada traz a sua contribuição adicional para o resultado do trabalho historiográfico não apenas como objeto que se configura em testemunho ou discurso de sua época, mas também abrindo certos caminhos de compreensão e, para além disto, enriquecendo mesmo, como experiência, o próprio historiador que se vê modificado no momento mesmo inicial da pesquisa.

Estas questões são importantes, e ao final da palestra voltaremos a elas. As fontes históricas, além de permitirem que o historiador concretize o seu acesso a determinadas realidades ou representações que já não temos diante de nós, permitindo que se realize este “estudo do homem no Tempo” que coincide com a própria História, também contribui para que o historiador aprenda novas maneiras de enxergar a história e formas de expressão que poderá empregar em seu texto historiográfico. Neste momento, conforme discutiremos no final desta palestra, estabelece-se uma misteriosa possibilidade de contato entre as fontes que instauram a pesquisa e o texto final que o historiador oferece ao seu leitor. Lidar com variedades de fontes históricas, veremos adiante, também instrui o historiador acerca de diferentes e novas possibilidades de expressão – uma questão que cada vez mais tem sido abordada nos tempos recentes. É assim que, ao passo em que foi descobrindo novas possibilidades de fontes históricas, o historiador também viu-se diante de novas possibilidades teóricas e expressivas: são apenas alguns exemplos o “olhar longo” da História Serial, a “escrita polifônica” das fontes dialógicas, o “olhar microscópico” proporcionado por fontes intensivas como os processos-criminais, ou mesmo a “escrita cinematográfica” que pôde ser assimilada por aqueles que estudam o Cinema.

Mas antes de chegar a estas questões mais recentes, principiemos discutindo algumas questões fundamentais para a compreensão da “revolução documental” que ainda não cessou de ocorrer na historiografia desde que a história passou a se postular como uma historiografia científica. Abordaremos, a seguir, alguns aspectos que na verdade estão interligados: a ‘expansão documental’, a multiplicação de metodologias e abordagens das fontes históricas, sobretudo a partir do século XX, e a crescente explicitação do diálogo com as fontes no texto historiográfico.



1.2. Expansão Documental

Já é lugar comum dizer que o século XX conheceu uma extraordinária expansão na possibilidade de tipos de fontes históricas disponíveis ao historiador. A expansão documental começa com a gradual multiplicação de possibilidades de fontes textuais – isto é, fontes tradicionalmente registradas pela escrita – e daí termina por atingir também os tipos de suporte, abrindo para o historiador a possibilidade de também trabalhar com fontes não-textuais: as fontes orais, as fontes iconográficas, as fontes materiais, ou mesmo as fontes naturais. Com o desenvolvimento de novas tecnologias, pergunta-se se já não teremos em pouco tempo um número significativo de trabalhos também explorando as fontes virtuais.

De certo modo, a história da historiografia tem conhecido duas expansões paralelas no universo das fontes historiográficas: de um lado, as fontes textuais, que sempre foram tão amplamente empregadas pelos historiadores, começam a se diversificar; de outro lado, pode ser percebido um contraponto importante que é o da expansão das fontes com novos tipos de suporte. Concentremo-nos por hora no esforço de mostrar a complexidade que abarca a expansão das possibilidades de fontes textuais. O ‘Quadro 1’ procura registrar visualmente esta expansão: na verdade uma expansão que termina por se voltar sobre si mesma. O esquema visual parte de algumas das fontes que, um tanto impropriamente, chamaremos de ‘fontes realistas’ (1) – que são aquelas que se apresentam aos historiadores como discursos narrativos que tentam prestar conta de acontecimentos que se deram realmente, ou que então tentam convencer os seus leitores da natureza real do objeto de suas narrativas. Dos relatos de natureza historiográfica aos relatos de viagem, passando pelas hagiografias, crônicas e biografias, neste tipo de fontes costumava se concentrar o trabalho dos historiadores até o século XIX.

Então, podemos dizer que ocorrerá a primeira revolução documental da historiografia – ou, se quisermos, a primeira fase de uma revolução historiográfica que mais adiante teria, no século XX, o seu segundo tempo. O século XIX, efetivamente, introduz o trabalho dos historiadores – para além das fontes que já eram utilizadas anteriormente – no mundo dos arquivos que começam a ser montados por toda a Europa em um monumental esforço incentivado pelos governos nacionais. Os ‘Documentos Políticos’ (2) – notadamente da “grande história política” – os ‘documentos diplomáticos’ relacionados à intrincada dialética da Guerra e da Paz (3), a documentação governamental (4), com suas leis e atos governamentais diversos, passarão a constituir a base do trabalho do historiador, que começa a desenvolver as suas primeiras técnicas de crítica documental. Por muitos dos historiadores oitocentistas, estas fontes serão tratadas sobretudo como depósitos de informações. De todo modo, pode-se dizer que a Crítica Documental tornou-se uma contribuição inestimável desta interação entre o historiador e as fontes político-institucionais. Com elas, o historiador aprendeu o “olhar meticuloso” tão precioso para a prática historiográfica.

Uma segunda revolução documental inicia-se nos anos 1930. Ou, se quisermos, podemos dizer que o universo das fontes históricas começa a se expandir novamente. Para além das fontes já acumuladas pela revolução documental anterior, a multiplicação de objetos históricos – agora concentrada sobretudo em aspectos sociais e econômicos – permitirá que alguns setores da historiografia comecem a centrar a sua atenção nos documentos administrativos (5), comerciais (6), eclesiásticos (7), cartoriais (8); fontes que logo seriam exploradas pelos historiadores a partir de uma nova abordagem, serial ou quantitativa. Na França, um país cuja historiografia exerceu grande influência sobre a historiografia brasileira, é conhecido o papel que a “história serial” exerceu até os anos 1970. Um inquestionável fruto colhido pela historiografia ao entrar em contato com as fontes seriais, mas também presente nas diversas modalidades historiográficas que passaram na mesma época a trabalhar com a “longa duração”, foi um novo tipo de olhar sobre a história: esse “olhar longo” que se estende sobre a “série documental” ou sobre grandes extensões de tempo ou de espaço e que, a partir daí, aprimora-se na habilidade de identificar permanências, de perceber ciclos, de avaliar pequenas variações no decurso de uma série de dados. O “olhar longo” junta-se assim ao “olhar meticuloso”, de modo que o historiador torna-se aqui um pouco mais completo.

Novos métodos costumam sempre acompanhar cada expansão no universo de fontes historiográficas. Quando assistimos nos anos 1980 a um crescente interesse dos historiadores pelas fontes jurídicas (9) e policiais (10) – a exemplo dos processos-crime e da documentação de inquisição – logo os historiadores aprendem a tirar um máximo partido destas fontes que são ao mesmo tempo intensivas – isto é, extraordinariamente ricas de detalhes – e dialógicas, no sentido de que são espaços de manifestação para muitas vozes sociais. Surge tanto uma escrita da história polifônica, voltada para a explicitação das várias vozes sociais, como também a Micro-História – uma modalidade historiográfica que se mostra pronta a mergulhar no projeto de enxergar grandes questões sociais a partir de uma escala de observação reduzida, porém com um olhar intensivo, que aproxima o historiador do olhar do detetive ou do criminalista que investigam indícios, mas também do médico que tenta enxergar a grande doença por trás dos pequenos sintomas. Vamos denominar a este novo olhar que se oferece aos historiadores dos anos 1980 de “olhar interior”, pois se ele é um olhar capaz de captar os detalhes mais reveladores, é também um olhar capaz de apreender a complexidade interna das realidades examinadas, além de captar a polifonia interna que se oculta em todas as formações sociais. Mais uma vez o historiador desenvolve a sua completude: o “olhar meticuloso”, o “olhar longo” e o “olhar interior” agora se integram como possibilidades para a constituição de uma historiografia mais plena.

As últimas conquistas, talvez sob a égide de uma historiografia que traz para o centro do cenário histórico o mundo da Cultura – estão nas fontes que se relacionam à vida privada (11) e a todos os tipos de literatura (12). Também não é por acaso que, em um mundo que é invadido pelo discurso, intensifique-se nesta mesma época a interdisciplinaridade com a Lingüística, a Semiótica e as Ciências da Comunicação, oportunizando aos historiadores novas metodologias de análise textual e discursiva que hoje já se tornaram patrimônio da historiografia contemporânea. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que, de alguma maneira, o historiador também conseguiu incorporar com estas novas experiências um certo “olhar estético”. A si mesmo, começou a se perceber como literato, e muitos passaram a buscar aprimorar novas formas de expressão na elaboração do seu texto historiográfico, conforme mais adiante discutiremos.

Tal como já assinalamos, um esquema como o que estamos tentando representar a complexidade das fontes históricas não pode ser senão circular: uma figura que se desdobra sobre si mesma. As fontes narrativas realistas (1), das quais partíramos, oferecem nos anos 1980 novas incorporações através dos jornais, e o chamado retorno da história política permite que os historiadores também incorporem, às fontes políticas (2) com as quais já lidavam, a documentação de partidos políticos e os discursos proferidos nestes mesmos ambientes.

As ampliações no universo de possibilidades das fontes textuais, já o dissemos, são acompanhadas de um movimento paralelo. Se os historiadores haviam começado a diversificar as suas fontes textuais, desde princípios do século XX, também começam a ser exploradas em um ritmo crescente as fontes com novos tipos de suporte. As imagens, por exemplo, deixariam de ser apenas objetos temáticos para os historiadores que já se interessavam pela História da Arte, e passaram a ser também fontes para historiadores interessados em chegar todo o tipo de questões sociais, econômicas e políticas através das fontes iconográficas. A História Oral, também nos anos 1980, conquista o seu lugar no campo da historiografia, e reaviva mais uma vez um diálogo com a Antropologia, com a qual a História já havia estabelecido tantas vagas de contatos interdisciplinares.

Poderíamos também seguir adiante na enumeração de conquistas historiográficas relacionadas às fontes não-textuais: os arquivos sonoros, o Cinema, a cultura material e mesmo as fontes naturais – aqui entendida como a natureza interferida pelo homem – abrem-se como novas possibilidades. Podemos hoje nos perguntar pelas fontes virtuais. Como os historiadores passarão a trabalhar com este tipo de fontes?


Leia a continuação deste texto em: http://ning.it/hhjbtC

[BARROS, José D'Assunção. “Fontes Históricas – um caminho percorrido e perspectivas sobre os novos tempos” in Revista Albuquerque. Vol.3, n°1, 2010]




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Referências:

BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001 [original publicado: 1949, póstumo] [original de produção do texto: 1941-1942]
GINZBURG, Carlo. Indagações sobre Piero: o Batismo - o Ciclo de Arezzo - a Flagelação. Tradução de Luiz Carlos Cappellano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989..

Fonte Histórica (1) O que é fonte histórica

“Fonte Histórica” é tudo aquilo que, produzido pelo homem ou trazendo vestígios de sua interferência, pode nos proporcionar um acesso à compreensão do passado humano. Neste sentido, são fontes históricas tanto os já tradicionais documentos textuais (crônicas, memórias, registros cartoriais, processos criminais, cartas legislativas, obras de literatura, correspondências públicas e privadas e tantos mais) como também quaisquer outros que possam nos fornecer um testemunho ou um discurso proveniente do passado humano, da realidade um dia vivida e que se apresenta como relevante para o Presente do historiador.

Incluem-se como possibilidades documentais desde os vestígios arqueológicos e outras fontes de cultura material (a arquitetura de um prédio, uma igreja, as ruas de uma cidade, monumentos, cerâmicas, utensílios da vida cotidiana) até representações pictóricas e fontes da cultura oral (testemunhos colhidos ou provocados pelo historiador). As investigações sobre o genoma humano fizeram do corpo e da própria genética uma fonte histórica igualmente útil e confiável, que inclusive permitiu que os historiadores passassem a ter acesso aos primórdios da aventura humana sobre a Terra, forçando a que se problematize o antigo conceito de “pré-história” que antes sinalizava uma região da realidade um dia vivida que estava até então proibida aos historiadores.

De igual maneira, a partir do século XX, quando a geografia passou a atuar interdisciplinarmente com a história, mesmo uma paisagem natural passou a ser encarada como uma possibilidade documental. O mesmo se pode dizer das relações entre a história e a lingüística, que trouxeram os próprios fatos da língua para o campo das evidências históricas, e também das perspectivas que se produziram na confluência entre História e Antropologia, que permitem que se abordem como fontes históricas as evidências e heranças imateriais, já sem nenhum suporte físico e concreto, como as festas dramáticas populares e os ritos religiosos que se deslocam e perpetuam-se na realidade social, os sistemas integrados e reconhecíveis de práticas e representações, os gestos e modos de sociabilidade, os bens relacionáveis ao chamado ‘patrimônio imaterial’ (modos de fazer algo, receitas alimentares, provérbios e ditos populares, anedotários, apenas para citar alguns exemplos).

É certo que houve um longo desenvolvimento historiográfico até que chegasse o momento em que, para além dos documentos e fontes concretizadas em papel ou qualquer outro material, fossem também admitidas as ‘fontes imateriais’ como campos de evidências das quais poderia o historiador se valer. De todo modo, pode-se dizer que nos dias de hoje não há praticamente limites para um historiador quanto à possibilidade de transformar qualquer coisa em fonte histórica. Um repertório de gestos, por exemplo, pode ser revelador de permanências do passado. Lembremos o hábito de cumprimentar tirando o chapéu, que provém do repertório de atitudes medievais: quando um cavaleiro cumprimentava o outro, tirava o elmo em sinal de que suas intenções eram pacíficas (sem o elmo, peça bélica defensiva, manifestava algo como uma proposta de desarmamento). Foram-se as batalhas e os elmos, e veio a sociedade oitocentista dos chapéus burgueses. O gesto, contudo, manteve-se incrustado no repertório de atitudes, e mesmo com os chapéus em desuso ainda permanece como um movimento que toca a testa como que para tirar o “elmo imaginário”. É assim que, em certos hábitos enraizados, expressos na vida cotidiana e na prática comportamental – também aí poderemos ir buscar uma fonte, uma evidência ou um testemunho do passado.

A ampliação documental foi uma conquista gradual dos historiadores; verificou-se à medida que a própria Historiografia expandia seus limites no decurso do século XX. O historiador adotava novas perspectivas, passava a dispor de novos métodos e a contar com o intercurso de outras disciplinas (Geografia, Lingüística, Psicologia – apenas para mencionar três dos campos relacionados aos exemplos antes expostos: a paisagem, a palavra e o gesto). Tudo isto e mais o interesse por novos objetos, até então desprezados pela historiografia tradicional, fez com que a historiografia contemporânea caminhasse para necessitar cada vez mais de outras fontes ou documentos que não só as crônicas e registros arquivísticos. Assim, se os Arquivos são fundamentais para o trabalho dos historiadores, eles estão longe de serem suficientes para fornecerem tudo o que os historiadores necessitam para o seu trabalho. Na verdade, a questão de pesquisar ou não em fontes de arquivos tem muito mais a ver com o objeto ou com os problemas históricos que estão sendo examinados do que qualquer outra coisa.

Tem a ver com esta questão, aliás, outra palavra que muito freqüentemente é empregada como sinônimo de fonte histórica: ‘documento histórico’. Na verdade, há algum tempo atrás esta palavra era até mais comum no linguajar do historiador do que ‘fonte histórica’; e, antes dela, até a historiografia do século XVIII, predominava uma outra palavra: "monumento". A expressão ‘documento histórico’, que se tornou muito típica no século XIX, mas que continuou a ser usada com sentidos ampliados no século XX, estava primordialmente muito relacionada tanto com os arquivos que começaram a ser organizados sistematicamente na época, como também com a maneira como então se concebia a História. Esperava-se que o historiador documentasse, no sentido jurídico, todas as afirmações que fizesse no decorrer de sua narrativa histórica. Daí a palavra “documento”, que, além de possuir uma origem jurídica, estava muito associada à idéia de prova, de “comprovação”.

Hoje em dia, empregam-se indistintamente as expressões “fonte histórica” ou “documento histórico”. Mas nota-se uma certa tendência à preferência cada vez maior pela expressão “fonte histórica”, talvez porque a expressão “documento histórico” tenha ficado um pouco associada à historiografia positivista, e um pouco também porque o historiador não espera mais dos materiais e evidências que lhes chegam do passado apenas ou necessariamente uma “prova”, encarando também as fontes como discursos a serem analisados ou redes de práticas e representações a serem compreendidas. Por isto, tende-se freqüentemente à utilização da palavra “fonte” na atual prática historiográfica. Em contrapartida, quando um historiador utiliza nos dias de hoje a palavra ‘documento histórico’, ele pode estar se referindo a qualquer tipo de fonte histórica, e não apenas àqueles tipos mais específicos de documentos textuais que os positivistas priorizavam.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Hipóteses e História: exemplificação a partir de um caso da História da América

Neste texto, vamos compreender a possibilidade de utilizarmos hipóteses na História (ou nas ciências humanas, de modo geral) a partir de um exemplo mais específico.

Na História da Conquista da América, um dos problemas mais intrigantes e fascinantes que têm sido enfrentados pelos historiadores é o de tentar entender como impérios tão bem organizados como o dos astecas e o dos incas, habitados por milhões de nativos, foram derrotados nas primeiras décadas do século XVI por apenas algumas centenas de soldados espanhóis em tão curto espaço de tempo e com tão aparente facilidade .

As hipóteses que têm sido propostas como respostas possíveis a este problema são muitas, “indo desde a inferioridade do armamento indígena (Las Casas), até as divisões políticas no interior desses impérios (Bernal Díaz, Cieza de León); desde os erros de estratégia militar apontados para explicar a derrota de Atahualpa em Cajamarca (Oviedo), até as sofisticadas explicações dos estudiosos modernos que consideram a derrota dos índios como conseqüência de sua incapacidade de decodificar os signos dos conquistadores (Todorov)” (BRUIT, 1994: 18).

Vamos retomar este problema da História da América, pois ele nos ajudará a entender a importância das hipóteses para acondução de uma pesquisa, e também a entender - já no âmbito mais específico da historiografia - o que é propriamente uma hipótese.

Perguntaremo-nos pelo fator ou pela combinação de fatores que teriam favorecido este acontecimento, tão significativo para o destino subseqüente do continente americano. Nesta formulação, o Problema apresentado ocupará a primeira parte do enunciado, enquanto a parte subsequente, depois das reticências, deverá ser preenchida pela redação pertinente a cada uma das diversas hipóteses que se apresentam como soluções satisfatórias para a questão imaginada, ou ao menos como caminhos de investigação possíveis. Pensemos neste conjunto formad por um problema específico, e pelas suas possíveis hipóteses, a partir do seguinte esquema visual:














Quadro 1: Um problema e suas hipóteses


Basta substituir o segundo termo (depois das reticências ...) por qualquer das alternativas propostas, ou por uma combinação de duas ou três das alternativas propostas, e teremos diversas possibilidades para o mesmo problema. O círculo à esquerda enquadra o problema proposto, que é também a primeira parte de uma hipótese a ser redigida. À direita, são apresentadas algumas respostas possíveis para o problema, que constituem a segunda parte da redação proposta para a Hipótese a ser formulada. Assim, uma das várias hipóteses indicadas no esquema (a célebre hipótese de Todorov, no livro "A Conquista da América") poderia ser redigida da seguinte forma:

"a sujeição de milhões de nativos meso-americanos, organizados em impérios centralizados e desenvolvidos como o dos astecas, em curto espaço de tempo e para apenas algumas centenas de soldados espanhóis, ... deveu-se fundamentalmente à dificuldade dos astecas em lidar com a alteridade e com o choque cultural produzido pelo seu contato com os conquistadores."

Em diversas ocasiões uma hipótese apresenta este tipo de formato redacional, particularmente as que buscam compreender as relações entre um acontecimento ou fenômeno e os fatores dominantes que o tornaram possível. O próprio problema pode aparecer neste caso como o primeiro termo da hipótese, e a solução provisória ou resposta antecipada pode corresponder ao termo subseqüente. Por ora, o aspecto importante a ressaltar – com relação à exemplificação que propomos – é que inúmeros historiadores têm proposto para o problema da Conquista da América diversas hipóteses, como estas ou outras, e, ainda mais freqüentemente, combinações de hipóteses que buscariam dar uma explicação complexa ou multifatorial para o problema formulado. Para sustentar as hipóteses propostas, estes historiadores têm desenvolvido argumentações diversificadas, apoiando-se em fontes diversas, analisando-as com metodologias variadas, e abordando o problema a partir de quadros teóricos específicos.

A bem dizer, a formulação de hipóteses explicativas diversas para o processo da Conquista da América começou a ocorrer já desde a época dos próprios acontecimentos. Bernal Diaz, que acompanhou a expedição de Cortês, dá o ponto de partida nas hipóteses que procuram explicar o sucesso da Conquista em termos de uma extrema habilidade e coragem dos conquistadores espanhóis, o que é compreensível, uma vez que este historiador e participante da expedição não poderia senão defender o ponto de vista dos conquistadores espanhóis. Bem mais tarde, no século XIX, veremos ressurgir vigorosamente esta hipótese que buscava essencialmente enaltecer os conquistadores, particularmente com o setor da historiografia que ficou conhecido como responsável por produzir uma “História dos Grandes Homens” – essa história na qual os grandes personagens históricos eram os principais responsáveis pelos acontecimentos. Assim, William Prescott, um historiador que escreve sobre a Conquista da América em 1843 (PRESCOTT, 1909), iria atribuir o sucesso da empresa da Conquista da América às façanhas de Cortês e de seus homens, e mesmo no século XX, quando ocorreria uma crítica contumaz à História dos Grandes Homens, esta hipótese ainda estaria sendo reformulada algumas vezes .

Já a hipótese da ‘superioridade bélica’ (2) – que em alguma medida deve entrar em qualquer análise sobre a Conquista da América – não poderia rigorosamente, sozinha, explicar a rapidez do processo e a intensidade da devastação, e nem tampouco o fato contundente de que os espanhóis tiveram de enfrentar uma descomunal desproporção diante de milhões de astecas contra apenas algumas centenas de soldados espanhóis. Essa hipótese, importante mas não suficiente, dificilmente pode ser convincente quando não articulada a outras, como por exemplo a hipótese indicada com o número ‘4’, e que postula que ‘divisões políticas no interior das sociedades astecas favoreceram ou foram exploradas habilmente pelos espanhóis’.

Aliás, existem nuances possíveis dentro desta mesma hipótese. Quando se diz que os espanhóis souberam explorar as divisões existentes nas sociedades mexicanas e as rivalidades recíprocas entre alguns povos da região, coloca-se os conquistadores espanhóis no centro do palco, como atores principais, e escreve-se uma história do ponto de vista europeu . Quando se propõe que havia previamente uma guerra civil indígena que enfraquece o império asteca, e que daí surgem condições para os espanhóis impingirem sua dominação, desloca-se o conquistador espanhol para uma espécie de papel coadjuvante, e faz-se dos astecas e seus inimigos indígenas os atores centrais da trama. A história é contada do ponto de vista asteca, e a chegada dos espanhóis entra como um acontecimento externo, e não o contrário .

Existe ainda a célebre hipótese de Todorov sobre o choque cultural, que, embora impactante para as duas civilizações que se encontraram no confronto entre espanhóis e astecas, teria favorecido no fim das contas os espanhóis. Afinal, os astecas, até o momento da chegada dos espanhóis à América, não conheciam senão povos relativamente parecidos com eles mesmos. Já os espanhóis, àquela altura de sua história, já conheciam populações muito distintas das populações européias, como as asiáticas, africanas, islâmicas. Os espanhóis, por assim dizer, tinham uma inegável experiência maior com a alteridade.

É preciso acrescentar ainda que um historiador não precisa se ater a uma única hipótese sobre determinado processo. Ele pode combinar um certo conjunto possível de hipóteses. Por exemplo, um historiador poderia postular que o que conduziu o processo da Conquista a se dar tal como se deu foi uma combinação de fatores: a superioridade bélica,o choque cultural, e a exploração espanhola da diversidade asteca. Um historiaDOR pode combinar duas, três, quatro ou mais hipóteses na sua interpretação de determinado processo histórico. isso amplia ainda mais o universo de alternativas hipotéticas em um caso como este que estamos investigando.

Com relação à temática trazida a exemplo, possivelmente, nunca se chegará a uma explicação sobre a Conquista da América que seja considerada mais pertinente do que todas as outras. Na verdade, a elaboração do conhecimento histórico consiste precisamente neste permanente re-exame do passado com base em determinadas fontes e a partir de determinados pontos de vista. As hipóteses na História ou nas Ciências Sociais dificilmente podem adquirir a aparência de verdades absolutas (se é que existem verdades deste tipo), porque há um espaço muito evidente de interpretação a ser preenchido pelo historiador ou pelo sociólogo na sua reflexão sobre problemas sociais do presente ou do passado. Em tempo: o que pode ser confirmado como afirmações indiscutíveis são determinados dados ou enunciados empíricos, mas não as proposições problematizadas que relacionam ou interpretam estes dados empíricos. Por isto mesmo, podemos dizer que a História corresponde a um conhecimento. interpretativo.

...

Para ler o texto completo sobre "O Uso de Hipóteses nas Ciências Humanas", acesse
http://ning.it/grnXjG

[BARROS, José D'Assunção. “As Hipóteses nas Ciências Humanas – considerações sobre a natureza, funções e usos das hipóteses” in Sísifo (Revista de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa). 2008. n°7, p.151-162. http://ning.it/grnXjG

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BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 7a edição.

BRUIT, Hector. O Trauma de uma Conquista Anunciada. In GEBRAN, P. e LEMOS M. T. (orgs.) América Latina: Cultura, Estado e Sociedade. Rio de Janeiro: ANPHLAC, 1994.

PRESCOTT, W. Conquest of México. Londres: Dent, 1909.

TODOROV, T. A Conquista da América – a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Hipóteses: na Filosofia, na Ciência e na vida cotidiana

Conceitos, conforme vimos em texto anterior, são instrumentos imprescindíveis para o historiador que pretende formular interpretações sobre realidades históricas específicas, ou para qualquer cientista social nos seus diversos campos de saber. Os conceitos fazem parte da Teoria, da visão de mundo do historiador. Os historiadores, além disto, lidam com outros instrumentos importantes para a operacionalização do seu trabalho, seja no que se refere ao âmbito da Teoria, seja no que concerne à instância da Metodologia.

Um recurso particularmente importante para os historiadores - assim como para os demais praticantes de ciências humanas, e também de outras modalidades do saber científico - é o uso de "hipóteses" como elementos importantes para a orientação da pesquisa. É sobre este recurso que discorreremos neste texto. Compreender como utilizar hipóteses na pesquisa é bastante importante, uma vez que, conforme veremos, as hipóteses estabelecem uma espécie de ligação entre a Teoria e a Metodologia.

Em um livro sobre Metodologia da História, intitulado "O Projeto de Pesquisa em História" (Editora Vozes, 2011, 7a edição), desenvolvi um capítulo que busca esclarecer mais sistematicamente o lugar da hipótese na pesquisa histórica, nas ciências humanas de modo mais geral, ou mesmo no conhecimento científico como um todo. Retomarei este texto a seguir.


Vejamos, em primeiro lugar, o que significa “hipótese” do ponto de vista da Filosofia e da Ciência, ou mesmo na vida cotidiana. Conforme se sabe, a investigação científica no Ocidente tem se edificado basicamente em torno da intenção de resolver “problemas” bem delineados, que grosso modo constituem o ponto de partida do próprio processo de investigação. Com a História, desde que ela assumiu o projeto de ser uma ciência, não tem sido muito diferente. Isto se tornou, aliás, cada vez mais característico da historiografia ocidental – sobretudo a partir do século XX, quando se superou a História Narrativa ou Descritiva do século XIX em favor de uma “História-Problema”. Já não existe sentido, para a historiografia profissional de hoje, em narrar simplesmente uma seqüência de acontecimentos, se esta narrativa não estiver problematizada.

A formulação de hipóteses, no processo de investigação científica, é precisamente a segunda parte deste modo de operar inaugurado pela formulação de um problema. Antes de mais nada, a hipótese corresponde a uma resposta possível ao problema formulado – a uma suposição ou solução provisória mediante à qual a imaginação se antecipa ao conhecimento, e que se destina a ser ulteriormente verificada (para ser confirmada ou rejeitada).

A hipótese é na verdade um recurso de que se vale o raciocínio humano diante da necessidade de superar o impasse produzi-do pela formulação de um problema e diante do interesse em adquirir um conhecimento que ainda não se tem. É um fio condutor para o pensamento, através do qual se busca encontrar uma solução adequada, ao mesmo tempo em que são descartadas progressivamente as soluções inadequadas para o problema que se quer resolver.

Um exemplo extraído da vida cotidiana poderá ajudar na compreensão deste uso das hipóteses ao longo de um raciocínio que visa resolver ou esclarecer um problema. Suponhamos que em uma determinada noite alguém está assistindo a um programa de televi-são, com as luzes apagadas, e que de repente a imagem do aparelho de TV se apaga, interrompendo o filme e deixando a sala às escuras, já que o televisor era o único foco de iluminação. Diante desta perturbação, o dono da casa formula um problema claramen-te delineado: o que terá levado a televisão a se apagar?

Para sair deste impasse, ele formula uma primeira hipótese. Talvez a tomada do televisor tenha se soltado da parede, interrom-pendo o fluxo de energia. É uma hipótese que pode ser facilmente verificada. Ele se levanta e vai até a tomada, quando verifica imediatamente que ela ainda está lá, corretamente conectada. Descartada esta hipótese, ele formula uma outra. Talvez tenha sido o tubo de imagens do televisor que, já antigo, não resistiu mais esta noite.

Como não entende de eletrônica, e não poderá verificar diretamente esta nova hipótese examinando os circuitos internos do aparelho de TV, o dono do televisor tem a idéia de caminhar até o interruptor da sala para acender a luz: se a luz se acender, é porque o problema é somente com a televisão (e neste caso será preciso chamar no dia seguinte um técnico, para saná-lo). Mas se também a luz da sala não se acender, por hipótese haverá um problema com a energia geral do apartamento, e o desligamento do televisor será apenas um de seus aspectos. Ele se levanta e, ao testar o interruptor, verifica que a luz não se acende, demonstrando que a hipótese válida é mesmo a de que interrupção da imagem da TV corresponde a uma interrupção na energia do apartamento.

Mas o que terá ocasionado então a interrupção de energia globalmente no apartamento? O problema continua colocado e clamando por soluções (ou, melhor dizendo, o problema é agora recolocado em termos mais precisos: não se trata de um problema só com o televisor, mas sim com o apartamento na sua totalidade). Quem sabe não foi o disjuntor geral do apartamento que se queimou? Eis aqui uma nova hipótese, da qual se pode verificar a exatidão de sua proposição através de um método ou operação bastante simples: substituir o disjuntor antigo, que hipoteticamente teria se queimado, por um novo. Feita a substituição, percebe-se que a luz continua apagada, e que portanto esta nova hipótese formulada não resistiu à verificação.

Quem sabe, então, se a luz do apartamento não foi cortada por falta de pagamento à Companhia de Energia Elétrica? O método para verificar esta hipótese é rapidamente encontrado: através de uma ligação telefônica, o dono do apartamento verifica junto a um serviço de gravações da Companhia de Energia Elétrica que os seus pagamentos estão em dia, e que portanto a sua energia não foi cortada por este motivo (também poderia ter comprovado isto por outro método: o de examinar os seus recibos bancários para verificar se estavam em dia). Se tivesse vingado a hipótese do corte de energia elétrica por falta de pagamento, as ações do investigador tomariam um novo rumo: seu novo problema seria o de sanar esta situação, o que poderia ser feito no dia seguinte pagando a conta de luz em um banco. Mas como não foi o caso, permanece em aberto a indagação sobre as verdadeiras razões da interrupção de energia, e a investigação prosseguirá neste mesmo rumo.

Uma última hipótese é a de que o problema não seja só com o seu apartamento, mas com todos os apartamentos daquela rua. Por algum motivo, pode ter sido interrompido o fornecimento de energia elétrica àquele setor da cidade. O primeiro método para verificar isto é levantar as persianas para examinar a vizinhança. Realmente, ele percebe em um relance de olhos que não há ilumi-nação em nenhum dos prédios de sua rua. Confirma-se a hipótese de que existe realmente um problema mais geral no fornecimento de energia elétrica. Para se aproximar de uma compreensão ainda mais plena da extensão do problema, ele se utiliza novamente do telefone e, entrando em contato com outro setor da Companhia de Eletricidade, recebe de um funcionário a informação precisa de que ocorreu um acidente que afetou a fiação que fornece eletricidade àquele setor da cidade, mas que dentro de vinte minutos este im-pedimento já estará resolvido. O problema chegou ao fim, depois de terem sido testadas algumas hipóteses e se verificado que uma delas correspondia à realidade.

Este exemplo, imaginado a partir de uma situação da vida cotidiana, permitirá esclarecer alguns aspectos sobre a utilização de hipóteses. Em primeiro lugar, pudemos perceber que todas as hipóteses são provisórias. Elas foram formuladas na tentativa de antecipar uma solução possível ao problema, e foram submetidas em seguida a um processo de verificação que buscou comprová-las ou rejeitá-las. Rejeitada, uma hipótese cede lugar a outra mais verossímil, que será submetida também a um processo de verificação. Deste modo, a formulação de uma Hipótese não inclui uma garantia de verdade.

Nesta mesma linha, deve ser considerado que a Hipótese não é uma evidência, mas sim uma suposição. Se o vidro do tubo de imagens tivesse se partido em pedaços quando ocorreu a interrupção da imagem, ficaria evidente de maneira imediata e óbvia que o problema ocorrera com o televisor, e não com o fornecimento de luz. Isto não seria mais uma hipótese, mas uma afirmação incontestável que não tem qualquer necessidade de verificação, por ser demais evidente. Trata-se antes de um ‘enunciado empírico’* de comprovação direta e imediata. Uma hipótese, ao contrário, é uma sentença que se propõe para um teste de verificação, ou que traz consigo possibilidades efetivas de ser verificada. Nisto a Hipótese também se distingue da mera Conjectura*, que embora também não corresponda a uma evidência imediata, não se pode ou não se pretende submetê-la à verificação.

Para o exemplo proposto, foi possível refutar a hipótese do corte por falta de pagamento através de um telefonema. Mas imaginemos que também as linhas de telefone não estivessem funcionando, ou que o apartamento não tivesse um telefone que pudesse ser utilizada. Neste caso, como a suposição não poderia ser verificada, não passaria de mera “conjectura”. Para que uma simples conjectura salte para a qualidade de hipótese, é preciso que ela traga consigo as possibilidades de uma verificação sistemática.

A formulação da suposição de que existe vida em Saturno, por exemplo, constitui no atual estado do conhecimento humano uma mera conjectura, que pode ser feita pelos autores de ficção científica. Ela só poderá passar a ser uma hipótese quando surgi-rem meios efetivos que permitam comprová-la. Se um dia for con-firmado, de maneira definitiva e incontestável, que existe efetiva-mente vida no planeta Saturno, a afirmação deixará de ser uma hipótese e passará a constituir um conhecimento adquirido. Também ocorrem casos em que uma hipótese comprovada (ou aparentemente comprovada) passa a ser aceita como uma “lei” em um determinado sistema científico (a “seleção natural” é uma “lei” para os darwinistas).

Voltando ao exemplo atrás proposto, pudemos perceber que, para ser verificada, foi utilizado para cada hipótese um método específico. Por exemplo, para verificar se a queda de energia não se deu em virtude da queima de um disjuntor, procedeu-se à sua substituição por um outro. Houve também momentos em que mais de um método poderia ter sido usado, alternativamente, para con-firmar ou rejeitar uma hipótese. Por exemplo, para verificar se o fornecimento de luz não foi interrompido por falta de pagamento, tanto se poderia utilizar o método de consulta junto à Companhia de Eletricidade, como o método de checar os recibos bancários para verificar se todos os pagamentos estavam em dia. Para verifi-car se o problema era só com o apartamento, tanto se pôde examinar a vizinhança para verificar se não havia problemas similares com os demais apartamentos da rua, como se pôde consultar por telefone a Companhia de Eletricidade.

Uma hipótese, conforme a sua natureza, encaminha o pesquisador para a utilização destes ou daqueles métodos (não necessariamente um apenas, mas de qualquer modo sempre métodos adequados ao tipo de hipótese proposta). Portanto, é ela que em última instância orienta o pesquisador na escolha dos métodos. Da mesma maneira, a utilização de hipóteses no exemplo considerado permitiu ao investigador que este desenvolvesse uma linha de ação concreta, desfazendo uma situação de imobilidade inicial. Dito de outra forma, cada hipótese forneceu a seu tempo uma direção para a pesquisa. Mesmo quando não comprovada, cada hipótese testada mostrou ser um eficiente instrumento para o encaminhamento da pesquisa, permitindo que se chegasse, ao final de um processo dedutivo de hipóteses interligadas, à solução definitiva do problema.

Ainda com relação aos processos de verificação de cada hipótese, vimos que estes puderam ser encaminhados em alguns casos através da observação de suas possíveis conseqüências (examinando dados empíricos como a correta conexão da tomada do televisor ou como a presença de outras luzes apagadas nos edifícios da vizinhança). Assim, para que o problema fosse só com o televisor, seria necessário que nenhum outro eletrodoméstico tivesse sido afetado. Da mesma forma, se o problema fosse só com o apartamento, o restante da vizinhança não deveria estar afetado. Portanto, examinando-se a conseqüência que seria necessária para que uma hipótese fosse verdadeira e observando que empiricamente os dados não a confirmavam, pôde se deduzir que a hipótese geradora seria falsa. Ou, ao contrário, se ao ser examinada a conseqüência necessária da hipótese fosse verificado que ela ocorre, ter-se-ia o sinal de uma possível veridicidade da hipótese, ou ao menos uma sinalização para continuar a investigação nesta direção.

Para dar um exemplo já dentro do campo da História, suponhamos a hipótese de que, ‘no século XVIII, o período revolucionário francês foi precedido por uma alta secular e geral de preços”. Para que esta hipótese seja rigorosamente verdadeira, é preciso que o preço do trigo em Marselha tenha tido uma alta no período, que o preço dos cereais na Provença tenha sofrido aumentos análogos, e assim por diante. Caso contrário, não teria ocorrido efetivamente uma alta geral dos preços. Se também em um certo número de cidades a alta de preços tiver correspondido apenas às duas últimas décadas do século, neste caso também não teria ocorrido uma alta secular dos preços. A afirmação de que ocorreu uma alta de preços simultaneamente geral e secular deve resistir nestes casos a um exame da verificabilidade das conseqüências que esta afirmação hipotética implicaria (generalidade relativa aos produtos e secularidade em relação à abrangência do recorte temporal). Em suma: para que tal ou qual hipótese seja verossímil, é preciso que todas as suas conseqüências necessárias se mostrem confirmáveis com dados empíricos.

Retomemos o exemplo da falta de energia atrás aventado. Naquele caso, outro meio além da observação pôde ser utilizado para a verificação das hipóteses. Tratou-se, em um caso ou outro, de proceder também à experimentação. Foi o caso, por exemplo, quando se experimentou um disjuntor no lugar do outro para ver se este não estava queimado. A experimentação é uma espécie de intervenção do pesquisador na realidade. Enquanto na observação o pesquisador examina os fenômenos nas condições em que eles se apresentam, na experimentação o pesquisador examina os fenômenos em condições determinadas ou produzidas por ele mesmo. É a diferença entre observar a realidade através da janela do apartamento e experimentar uma peça no lugar de outra para ver se há um defeito com a primeira.

Experimentação e observação sistemática, diga-se de passagem, são os dois procedimentos básicos utilizados nos métodos científicos. Ciências como a Física ou a Química costumam em-pregar freqüentemente a experimentação. Ciências como a História costumam se ater aos processos de observação sistematizada (neste caso, examinando dados obtidos das fontes e analisando-os com métodos diversos).

Examinemos até aqui o que já sabemos sobre as Hipóteses, não mais considerando o seu uso na vida cotidiana, mas sim na Filosofia e na Ciência. Sabemos por exemplo o que a Hipótese não é. Ela não é um mero enunciado empírico (embora possa ser com-provada precisamente pela investigação de um enunciado empírico) . A hipótese também não é uma evidência incontestável, e é por isto mesmo que necessita de demonstração. Neste sentido, a Hipótese difere do Axioma*, que na linguagem filosófica corresponde a um princípio indemonstrável mas considerado imediatamente evidente por todos aqueles que lhe compreendem o sentido.

Assim, não é uma hipótese a afirmação de que “todos os homens são mortais” (no sentido da conservação do corpo físico). Não temos aqui uma hipótese porque, por um lado, esta afirmação seria indemonstrável (para demonstrá-la seria preciso matar todos os homens, e não sobraria nenhum para concordar com a demonstração). Por outro lado, esta afirmação tem uma dimensão axiomática, já que ela parece evidente a qualquer um pelo simples fato de que não se conhece o caso de nenhum homem que, depois de de-terminado período de vida, tenha escapado à morte do corpo físico.

A Hipótese, por outra parte, é mais do que uma Conjectura, já que está ligada à idéia de que pode ser submetida a um processo de verificação, onde se poderá comprovar ou refutar a sua veridicidade. Dizer que existiu uma sociedade em algum ponto do pas-sado que foi chamada Atlântida e que submergiu sob as águas devido a um grande cataclismo seria, no atual estado dos conhecimentos científicos, mera conjectura, uma vez que não existe ao que se saiba nenhum elemento historiograficamente aceitável para comprovação desta afirmação.

Para que uma conjectura salte para o status de hipótese, é preciso que haja meios ou possibilidades de comprová-la; em História isto está ligado à presença de fontes, e às possibilidades efetivas de submetê-las a uma análise mais sistemática para posterior interpretação. As conjecturas têm menor valor científico. Elas só são admitidas para preencher os espaços vazios do conhecimento que sequer as hipóteses conseguiram preencher, e mesmo assim existe uma tendência na atitude científica ocidental m rejeitar o uso de meras conjecturas dentro de uma explicação científica .

A Hipótese deve portanto se conservar eqüidistante em relação à ‘ficção’ livremente concebida e aos ‘fatos’ evidentes ou inquestionavelmente comprovados. Ela está neste ‘caminho do meio’: traz em si o potencial imaginativo da ficção (mas sempre par-tindo de bases verossímeis e fundamentadas), e a possibilidade de ser comprovada em algum momento por fatos concretos que deve-rão ser discutidos argumentativamente. A Ficção e a Evidência são os horizontes em relação aos quais a Hipótese marca sua distância. Da mesma forma, pode-se dizer que a Hipótese vale-se da imagi-nação e dos fatos, mas não se confunde com eles.

É também em função de sua ligação a um processo de verificação ou demonstração que a Hipótese distingue-se da figura filosófica do Postulado, que é uma proposição que se faz admitir dentro de uma argumentação, com o assentimento do ouvinte, embora se reconheça que esta proposição não é nem suficientemente evidente para que seja impossível colocá-la em dúvida (como o axioma) e nem passível de demonstração (como a hipótese).

A Hipótese, para resumir o que foi visto até aqui, é uma asserção provisória que, longe de ser uma proposição evidente por si mesma, pode ou não ser verdadeira – e que, dentro de uma elaboração científica, deve ser necessariamente submetida a cuidadosos procedimentos de verificação e demonstração. Constitui-se em um dos elos do processo de argumentação ou investigação (na pesquisa científica ela é gerada a partir de um problema proposto e desencadeia um processo de demonstração depois da sua enunciação). É por isto que, etimologicamente, a palavra “hipótese” significa literalmente “proposição subjacente”. O que se “põe embaixo” é precisamente um enunciado que será coberto por outros, ou por uma série articulada de enunciados, de modo que a Hipótese desempenha o papel de uma espécie de fio condutor para a construção do conhecimento.

Apesar do seu caráter provisório, a Hipótese tem sido a base da argumentação científica e desempenha uma série de funções dentro da pesquisa e do desenvolvimento do conhecimento científico, como se verá mais adiante ...


[O presente texto foi extraído de BARROS,José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: editora Vozes, 2011, 7a edição]


Veja um artigo que aprofunda este tema, mais especificamente abordando "As Hipóteses nas Ciências Humanas", em: http://ning.it/grnXjG



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Referências Bibliográficas:

BARROS, José D'Assunção. “As Hipóteses nas Ciências Humanas – considerações sobre a natureza, funções e usos das hipóteses” in Sísifo (Revista de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa). 2008, n°7, p.151-162. http://ning.it/grnXjG

BARROS, José D'Assunção. O Projetode Pesquisa em História. Petrópolis: editora Vozes, 2005.